Além de 1,5 °C: o que o novo relatório do PNUMA revela sobre o futuro da ação climática

Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA/UNEP) chama atenção para uma questão que passa a ocupar um espaço cada vez mais relevante na agenda climática: como lidar com um possível período de aquecimento acima de 1,5 °C e, ao mesmo tempo, manter o esforço para retornar a esse patamar.
Publicado em setembro de 2026, o relatório Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return apresenta o conceito de “overshoot” — período em que o aquecimento global ultrapassa temporariamente 1,5 °C — e propõe uma trajetória baseada em três movimentos: ultrapassar, atingir um pico e posteriormente reduzir as temperaturas.

1,5 °C continua sendo uma referência
Em 2024, a temperatura média global registrou, pela primeira vez, um ano acima de 1,5 °C em relação ao período pré-industrial. O PNUMA ressalta, porém, que a avaliação do aquecimento climático é feita considerando tendências de longo prazo, e não um único ano.
Ainda assim, os sinais apontam para um cenário de maior aquecimento. Segundo o PNUMA, mesmo a implementação dos compromissos e políticas climáticas atuais levaria o aquecimento a pelo menos 1,8 °C, enquanto outros cenários projetam picos superiores a 2 °C.
Nesse contexto, o relatório reforça que ultrapassar 1,5 °C não deve ser interpretado como o abandono dessa referência. A questão passa a ser quanto a temperatura irá ultrapassar esse limite, por quanto tempo permanecerá acima dele e quais ações podem acelerar o retorno.
O que significa “overshoot”?
O conceito não representa um momento isolado, mas uma trajetória que se desenvolve ao longo de décadas.
De acordo com o relatório, essa trajetória pode ser compreendida em quatro etapas: a ultrapassagem de 1,5 °C, o alcance de um pico, a redução das temperaturas e, posteriormente, a estabilização.
A diferença entre cenários está justamente no formato dessa trajetória. Quanto menor o pico e mais curto o período de permanência acima de 1,5 °C, menores tendem a ser os riscos climáticos associados.
Isso significa que cada fração de grau evitada e cada ano em que a ultrapassagem possa ser reduzida representam diferenças relevantes para pessoas, ecossistemas, infraestrutura e economia.
Mitigação e adaptação precisam avançar juntas
Um dos principais pontos destacados pelo PNUMA é a necessidade de abandonar a ideia de que mitigação e adaptação são agendas independentes.
A mitigação, por meio da redução das emissões de gases de efeito estufa, continua sendo essencial para limitar o aumento da temperatura. Ao mesmo tempo, a adaptação torna-se cada vez mais necessária diante dos impactos que já estão ocorrendo e daqueles que não poderão ser evitados.
O relatório aponta que as duas frentes são interdependentes: quanto maior o aquecimento, maiores podem ser os limites para a adaptação. Por outro lado, medidas de adaptação podem contribuir para preservar a capacidade das sociedades de enfrentar riscos futuros e manter condições para avançar na transição climática.
Para organizações, essa integração reforça a importância de olhar para o clima não apenas a partir de suas emissões, mas também a partir de sua exposição e vulnerabilidade aos riscos físicos e de transição.
A remoção de carbono ganha espaço, mas não substitui a redução de emissões
Outro elemento importante do relatório é o papel da remoção de dióxido de carbono (CDR).
Para que as temperaturas possam retornar a níveis inferiores a 1,5 °C após um período de ultrapassagem, será necessário retirar CO₂ da atmosfera em escala crescente. O relatório considera diferentes formas de remoção, desde soluções baseadas em ecossistemas até tecnologias como a captura direta de carbono do ar.
No entanto, o PNUMA reforça uma distinção fundamental: remoção de carbono não é substituta para a redução das emissões.
A capacidade de remoção apresenta limitações técnicas, econômicas, territoriais e de governança. Por isso, a redução rápida e sustentada das emissões permanece como elemento central da resposta climática.
O que isso representa para as empresas?
O cenário apresentado pelo PNUMA amplia a necessidade de uma abordagem estratégica para a gestão climática.
Estabelecer metas de redução de emissões também exige compreender como diferentes trajetórias climáticas podem afetar os negócios, as operações, os ativos, as cadeias de valor e as relações com os stakeholders.
Isso envolve, entre outros aspectos:
aprimorar inventários e dados de emissões de GEE;
estabelecer estratégias de mitigação e descarbonização;
avaliar riscos climáticos físicos e de transição;
desenvolver medidas de adaptação e resiliência;
analisar cenários climáticos e seus possíveis impactos sobre o negócio;
acompanhar a evolução das políticas e regulamentações relacionadas ao clima;
integrar questões climáticas à estratégia e à tomada de decisão.
Nesse sentido, a discussão sobre o overshoot reforça uma mudança importante: a gestão climática precisa considerar não apenas a redução das emissões, mas também a capacidade de organizações e territórios de atravessar diferentes cenários climáticos.
O futuro climático ainda está em construção
O relatório do PNUMA reconhece que alguns impactos decorrentes do aumento da temperatura serão irreversíveis e que ainda existem muitas incertezas sobre como sistemas naturais e sociais responderão a uma eventual trajetória de retorno.
Isso torna ainda mais relevante agir sobre aquilo que pode ser influenciado hoje.
Limitar o pico de aquecimento, reduzir o tempo de permanência acima de 1,5 °C, fortalecer a adaptação e ampliar a capacidade de resposta são partes de uma mesma agenda.
A mensagem central é direta: o cenário climático futuro não está completamente definido. As decisões tomadas agora continuam determinando a intensidade dos riscos, a velocidade das transformações e o espaço disponível para adaptação.
Para empresas, isso significa transformar informação climática em estratégia — antecipando mudanças, fortalecendo a resiliência e preparando os negócios para diferentes futuros possíveis.

Fonte:
United Nations Environment Programme (UNEP), Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return, 2026.
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