ODS no relatório: conexão real ou só um conjunto de ícones?

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estão presentes em muitos relatórios de sustentabilidade. Basta percorrer algumas páginas para encontrar os 17 ícones, acompanhados de iniciativas, projetos e compromissos relacionados a diferentes objetivos.
Mas uma pergunta importante fica: essa relação foi construída a partir da realidade da organização ou os ODS foram apenas associados às ações que já existiam?

Criados pela Organização das Nações Unidas (ONU) como parte da Agenda 2030, os 17 ODS reúnem 169 metas relacionadas a diferentes desafios do desenvolvimento sustentável. A própria Agenda 2030 destaca que esses objetivos são integrados e indivisíveis e devem considerar as diferentes realidades e prioridades de cada contexto.
Por isso, não é esperado que uma empresa tenha a mesma relação com todos os ODS.
Uma organização que possui operações industriais, por exemplo, pode ter impactos relevantes relacionados ao consumo de água, às emissões de gases de efeito estufa, às condições de trabalho e à gestão de resíduos. Para outra empresa, os temas mais relevantes podem estar relacionados à cadeia de fornecedores, privacidade de dados, diversidade ou desenvolvimento das comunidades onde atua.
O ponto de partida deveria ser a própria organização.
Quais são seus impactos mais significativos?
Quais temas estão no centro da sua estratégia?
Quais compromissos já foram assumidos?
Que indicadores permitem acompanhar esses assuntos?
A partir dessas respostas, a conexão com os ODS passa a ter mais consistência.
Onde entram os ODS?
Um estudo de materialidade pode ajudar a identificar os temas mais relevantes para a organização e, a partir deles, estabelecer relações com os ODS e suas respectivas metas.
Essa conexão também pode ser aproximada dos indicadores utilizados pela empresa e das informações reportadas em frameworks e normas de sustentabilidade.
Por exemplo, uma organização que identifica as emissões de gases de efeito estufa como um tema relevante pode relacionar sua atuação ao ODS 13 – Ação contra a mudança global do clima e acompanhar indicadores que permitam entender sua evolução. Da mesma forma, questões relacionadas à gestão da água podem dialogar com o ODS 6 – Água potável e saneamento.
A relação, entretanto, não termina na identificação do objetivo.
É preciso conseguir responder: o que a empresa está fazendo sobre esse tema, como acompanha seus resultados e o que pretende melhorar?
Quando existe essa conexão, os ODS deixam de ocupar apenas um espaço visual no relatório e passam a fazer parte da leitura da estratégia de sustentabilidade.
O relatório também precisa mostrar essa conexão
Em um relatório de sustentabilidade, apresentar os ODS sem explicar sua relação com os impactos, metas e indicadores da organização pode tornar essa informação pouco útil para quem lê.
O caminho inverso também é possível: partir dos temas materiais, entender quais ODS estão efetivamente relacionados a eles e demonstrar essa conexão de maneira transparente no reporte.
Isso ajuda o leitor a compreender por que determinado ODS foi considerado relevante e, principalmente, qual é a relação dele com a atuação da organização.
Os ODS podem ser uma referência importante para orientar e comunicar compromissos relacionados ao desenvolvimento sustentável. Mas, para isso, precisam estar conectados à realidade do negócio.
No fim, a pergunta não deveria ser quantos ODS aparecem no relatório.
Deveria ser: o que a organização está fazendo, de fato, em relação aos ODS que apresenta?

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