top of page

Clima e negócios: como o El Niño pode afetar as empresas

Foto do escritor: Keep ESG
Keep ESG
há 5 horas
7 min de leitura

O fenômeno climático pode afetar muito mais do que o agronegócio. Energia, logística, disponibilidade hídrica, produtividade, infraestrutura e cadeias de suprimentos estão entre os fatores que podem sofrer impactos e chegar aos resultados das empresas.

Quando se fala em El Niño, é comum associá-lo principalmente à agricultura, às chuvas e às secas. No entanto, seus efeitos podem ultrapassar o campo ambiental e chegar diretamente à operação das empresas.

Alterações nos padrões de temperatura e precipitação podem influenciar custos, disponibilidade de recursos, logística, produtividade, infraestrutura, comportamento do consumidor e continuidade operacional. Por isso, acompanhar o fenômeno também é uma forma de acompanhar riscos que podem afetar o negócio.


Imagem: representação do fenômeno El Niño. Fonte: CNN Brasil (Gemini/Google).
Imagem: representação do fenômeno El Niño. Fonte: CNN Brasil (Gemini/Google).

Um cenário que merece atenção

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e faz parte do sistema El Niño-Oscilação Sul (ENOS).

No Brasil, seus efeitos não são uniformes. Historicamente, o fenômeno está associado a maior ocorrência de chuvas no Sul e tendência de redução das precipitações nas regiões Norte e Nordeste, embora a intensidade e a distribuição desses efeitos variem de acordo com cada episódio.

O cenário de 2026–2027 vem recebendo atenção especial. O terceiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por INPE, INMET, ANA, CEMADEN, SGB, SEDEC e CENSIPAM, aponta mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro de 2026. Os modelos utilizados também indicam a permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027.

Para o trimestre setembro-outubro-novembro, as previsões indicam chuvas acima da média em áreas da Região Sul e abaixo da média em parte do centro-norte do país. O mesmo boletim destaca que as condições devem ser acompanhadas continuamente, justamente porque os impactos variam regionalmente.

É importante ressaltar que previsões climáticas são probabilísticas. A existência de um cenário de El Niño não significa que todos os impactos ocorrerão da mesma maneira ou que todas as empresas serão afetadas. O valor dessas informações está em permitir que organizações identifiquem exposições e preparem respostas antes que determinados efeitos se materializem.


Como o clima pode chegar aos resultados?

O impacto climático raramente aparece na demonstração de resultados com o nome “El Niño”.

Ele pode surgir como:

  • aumento do custo de matérias-primas;

  • alterações na disponibilidade de insumos;

  • aumento ou alteração dos custos logísticos;

  • interrupções de transporte;

  • maior consumo de energia;

  • restrições de disponibilidade hídrica;

  • redução da produtividade;

  • absenteísmo;

  • danos a equipamentos e instalações;

  • interrupção de sistemas;

  • alteração no comportamento dos consumidores;

  • perdas ou excesso de estoque;

  • redução de receita.

Essa relação é importante porque um evento climático pode começar como uma variável ambiental e terminar como uma variável operacional ou financeira.


Cinco dimensões para observar

1. Pessoas

As condições climáticas podem afetar a capacidade de trabalho de diferentes maneiras.

Calor excessivo, baixa umidade, fumaça proveniente de incêndios, chuvas intensas e dificuldades de deslocamento podem contribuir para afastamentos, atrasos, alterações de jornada e redução da produtividade, principalmente em atividades realizadas ao ar livre ou que exigem esforço físico.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, até 2030, mais de 2% do total de horas de trabalho no mundo poderão ser perdidas anualmente em razão do estresse térmico. A exposição é especialmente relevante em atividades que envolvem trabalho físico e exposição ao ambiente externo.

Por isso, alguns indicadores podem ser acompanhados de forma integrada:

  • absenteísmo por causa e por unidade;

  • acidentes e incidentes associados às condições climáticas;

  • produtividade por hora trabalhada;

  • temperatura e umidade nos postos de trabalho;

  • afastamentos relacionados ao calor;

  • atrasos e faltas em dias de eventos extremos.

O objetivo não é atribuir automaticamente qualquer alteração de produtividade ao clima, mas identificar correlações e padrões que possam indicar uma exposição relevante.


2. Tecnologia e infraestrutura

A continuidade das operações também pode ser afetada por eventos climáticos.

Tempestades, descargas atmosféricas e interrupções de energia podem provocar danos a equipamentos e indisponibilidade de sistemas. Em operações altamente digitalizadas, uma falha pode comprometer processos que vão do controle da produção ao faturamento e ao monitoramento de equipamentos.

Por isso, vale acompanhar:

  • quantidade e duração das interrupções;

  • indisponibilidade de sistemas;

  • ocorrências de danos a equipamentos;

  • custos de manutenção e reposição;

  • autonomia de nobreaks e geradores;

  • temperatura e umidade de ambientes críticos;

  • disponibilidade dos links de comunicação.

Um ponto importante é registrar também a causa da ocorrência. Uma interrupção registrada apenas como “falha de sistema” pode esconder uma relação recorrente com eventos climáticos.


3. Comércio e demanda

No comércio, o impacto pode aparecer principalmente pela alteração do comportamento do consumidor.

Mudanças de temperatura e precipitação podem influenciar o que as pessoas compram, quando compram e como acessam os pontos de venda.

Para empresas que trabalham com produtos sazonais, uma alteração do padrão climático pode resultar em mudanças no ritmo de vendas, excesso de determinados produtos, necessidade de descontos e pressão sobre o capital de giro.

Alguns indicadores podem ajudar nessa leitura:

  • vendas por categoria;

  • giro de estoque;

  • cobertura de estoque em dias;

  • percentual de vendas com desconto;

  • ruptura de produtos;

  • perdas por deterioração;

  • concentração de fornecedores por região.

Assim, não basta olhar apenas para a receita. Estoque, margem e comportamento da demanda também podem funcionar como sinais de exposição climática.


4. Indústria, mineração e cadeia de suprimentos

Operações industriais e de mineração podem estar expostas tanto ao excesso quanto à falta de água.

Chuvas intensas podem afetar operações a céu aberto, estradas, ferrovias, portos e outras estruturas de transporte. Já períodos mais secos podem pressionar a disponibilidade hídrica, afetar captações e aumentar riscos relacionados à continuidade operacional.

O cenário regional do El Niño torna essa análise ainda mais importante. Enquanto a previsão para o trimestre setembro-novembro indica tendência de chuvas acima da média em áreas do Sul, o centro-norte do país apresenta tendência oposta.

Entre os indicadores que podem ser monitorados estão:

  • consumo e disponibilidade de água;

  • volume captado versus volume outorgado;

  • horas de parada por eventos climáticos;

  • volume produzido versus volume embarcado;

  • custos de frete por modal;

  • níveis dos rios;

  • estoque em pátios e centros de distribuição;

  • concentração regional de fornecedores;

  • custo de matérias-primas críticas.

Para empresas com operações distribuídas geograficamente, a análise precisa considerar cada unidade individualmente. Uma mesma organização pode enfrentar excesso de chuva em uma região e restrição hídrica em outra.


5. Serviços

Nos serviços, o clima pode afetar principalmente a agenda, o deslocamento e a capacidade de execução.

Construção civil, manutenção de campo, turismo, eventos e outras atividades dependentes de condições externas podem perder horas produtivas ou precisar reorganizar cronogramas.

Já segmentos que dependem de condições controladas, como clínicas, laboratórios e centros de distribuição refrigerados, podem enfrentar aumento da demanda por climatização e riscos associados a interrupções de energia ou falhas na refrigeração.

Alguns indicadores relevantes incluem:

  • horas efetivamente trabalhadas;

  • atrasos e cancelamentos;

  • produtividade por equipe;

  • desvios de cronograma;

  • consumo de energia;

  • ocorrências de interrupção;

  • temperatura de ambientes críticos;

  • autonomia de geradores;

  • perdas decorrentes de falhas de refrigeração.


Energia: outro ponto de conexão

A energia também pode ser uma importante conexão entre condições climáticas e custos operacionais. As condições de geração elétrica estão relacionadas, entre outros fatores, às condições hidrológicas e ao nível dos reservatórios. O sistema de bandeiras tarifárias da ANEEL funciona justamente como um sinal das condições de geração e dos custos associados à produção de energia elétrica. A bandeira amarela representa condições menos favoráveis de geração e acrescenta R$ 0,01885 por kWh consumido.

Para empresas com consumo significativo de energia, vale acompanhar:

  • consumo de energia por unidade produzida;

  • consumo por horário;

  • custo de energia;

  • participação do horário de ponta;

  • consumo associado à climatização;

  • eficiência dos equipamentos;

  • modalidade de contratação de energia.

O acompanhamento desse tipo de indicador permite que a organização entenda não apenas quanto está gastando, mas também quais fatores estão contribuindo para a variação do custo.



E o que as empresas podem fazer?

A gestão do risco climático não começa necessariamente com grandes investimentos.

Um primeiro passo é entender onde a empresa está exposta e quais informações já existem internamente.

Relatórios de manutenção, registros de paradas, indicadores de produção, contas de energia, dados de absenteísmo, registros de acidentes, informações de compras e ocorrências logísticas podem, quando analisados em conjunto, revelar padrões importantes.

Uma abordagem prática pode partir de três perguntas:

1. Onde estão as maiores exposições climáticas?

Mapear unidades, fornecedores, rotas logísticas, ativos e processos mais sensíveis às condições previstas para cada região.

2. Quais dados já existem, mas ainda não são relacionados ao clima?

Identificar indicadores operacionais que possam ser cruzados com chuva, temperatura, disponibilidade hídrica, eventos extremos ou outras variáveis climáticas.

3. Quais gatilhos devem gerar uma decisão?

Mais do que acompanhar indicadores, é importante definir previamente quando uma determinada condição exige uma resposta, quem será responsável e qual medida deverá ser tomada.



Clima também é uma variável de negócio

O El Niño não determina sozinho o desempenho de uma empresa. Seus efeitos dependem da localização, do setor, da cadeia de valor, da infraestrutura, da capacidade de adaptação e de diversos outros fatores.

Mas justamente por isso, tratar o clima apenas como uma questão ambiental pode limitar a compreensão dos riscos do negócio.

Para algumas empresas, o principal impacto pode estar na água. Para outras, na energia, na logística, na produtividade das equipes, no comportamento do consumidor ou na disponibilidade de matérias-primas.

A questão é transformar o cenário climático em informação útil para a tomada de decisão.

Antecipar mudanças também significa compreender como as mudanças do clima podem chegar à operação — e quais indicadores podem ajudar a agir antes que o impacto apareça nos resultados.


Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT)
Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT)

Para acompanhar

O cenário do El Niño é atualizado continuamente pelas instituições responsáveis pelo monitoramento climático.

Entre as principais referências para acompanhamento estão o NOAA Climate Prediction Center, o Painel El Niño 2026–2027, coordenado por INPE e INMET em conjunto com ANA, CEMADEN, SGB, SEDEC e CENSIPAM, além de órgãos como ONS e ANEEL para aspectos relacionados à disponibilidade hídrica e energia.

Como previsões climáticas podem ser atualizadas ao longo do tempo, recomenda-se consultar os boletins mais recentes antes de utilizar os dados para decisões operacionais ou estratégicas.


Referências

INPE. Painel El Niño 2026–2027: terceiro boletim sobre o monitoramento do fenômeno no Brasil. Setembro de 2026.

INMET. El Niño em 2026? Previsões apontam aumento da probabilidade do fenômeno no segundo semestre. Março de 2026.

NOAA – Climate Prediction Center. Informações e previsões do El Niño–Oscilação Sul (ENSO), 2026.

ANEEL. Sistema de Bandeiras Tarifárias. Informações sobre as condições de geração e os adicionais tarifários.

OIT – Organização Internacional do Trabalho. Working on a warmer planet: The impact of heat stress on labour productivity and decent work.

LACERDA, Gustavo. “O que El Niño tem a ver com o resultado da sua empresa?”. LinkedIn, 9 de setembro de 2026. Material utilizado como referência para a abordagem dos impactos empresariais do fenômeno.



Comentários


  • alt.text.label.LinkedIn
  • alt.text.label.Instagram
bottom of page